Manuel Luis da Silva Pinto
Comentário do Professor Sobrinho Simões Brevíssimo comentário ao DENTRO DA CELULA (INSIDE THE CELL) Se eu tivesse - e confesso que gostaria de ter - de usar este livrinho para estimular a curiosidade dos meus alunos talvez começasse por lhes lembrar as diferenças entre a célula ?isolada? de um microrganismo unicelular (por exemplo uma bactéria) e a célula artificialmente "isolada" de um organismo com cerca de 80 triliões de células como é o Homem. As maiores diferenças não têm a ver com as funções vitais de toda e qualquer célula - tanto as bactérias como as células de um organismo multicelular nascem, diferenciam-se (mexendo-se mais ou menos) e morrem (geralmente por apoptose ou um mecanismo desse tipo) - mas sim com duas propriedades que são exclusivas dos seres multicelulares: a regeneração e a reprodução. São estas diferenças, assim como a existência, nos tais seres multicelulares como nós, de sistemas de associação especializados como os sistemas vasculares, imunitário, neuronal e endócrino que justificam o aparecimento de doenças como a arteriosclerose e o cancro (As bactérias não têm essas doenças?). Sempre que fosse possível saltaria assim - continuo a imaginar-me um docente utilizador do livro - do universo restrito da célula isolada, muitíssimo bem descrito nos cinco capítulos, para o universo da célula e da(s) sua(s) circunstância(s) como diria o Poeta. Isto é, procuraria discutir a relação das células entre si e com a matriz extracelular e do papel que estas interacções desempenham através da constituição dos tecidos e dos órgãos, tanto na saúde como na doença. Não é esta a altura adequada para qualquer desenvolvimento sistemático mas, a título de exemplo, penso que valerá a pena pensar em usar o excelente capítulo que trata da mitose e da meiose para discutir a regeneração tecidular e a reprodução. Regeneramos, nós os humanos, em menos de 2 anos, nos tecidos mais lábeis - medula óssea e mucosas do tubo digestivo, aparelho respiratório e aparelho urinários - o equivalente à nossa massa corporal. No que diz respeito à pele, um tecido também altamente regenerativo, produzimos, durante a vida, 60 a 70 kilos de queratina. Aproveitaria, por outro lado, a meiose para discutir a reprodução sexuada, geradora de uma muito maior biodiversidade do que a reprodução assexuada das bactérias. Ainda na linha das diferenças entre seres unicelulares e seres multicelulares talvez valha a pena salientar o facto do Homem, como muitos outros seres vivos multicelulares, ter em equilíbrio biológico e metabólico, sobretudo nas zonas de fronteira com o meio externo (pele e mucosas), um número imenso de microorganismos. Por exemplo, calcula-se que cada um de nós tenha no seu tubo digestivo entre 1000 a 1200 gramas de bactérias responsáveis por funções tão diversas como a colaboração na digestão ou a produção de metabolitos que absorvemos e usamos em nosso proveito. A ideia de que o Homem, para além de ser um organismo multicelular, é um "superorganismo quimérico" tem muita graça e poderá contribuir para que os alunos se interroguem acerca das células de que somos feitos e das células que connosco interagem. Porto, 12 de Outubro de 2009 Manuel Sobrinho Simões