Título

Plantação de algodão

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Descrição

O CARNEIRO VEGETAL1

O género botânico Gossypium, o algodoeiro, é responsável pela produção de fibras que depois de tecidas, constituem o chamado algodão, produto natural muito procurado e apetecido desde a antiguidade. Este género inclui cerca de 50 espécies das quais quatro, domesticadas há mais de 4000 anos, são as preferencialmente usadas para a produção da referida fibra. A saber, Gossypium hirsutum e G. barbadense do Novo Mundo (América do Norte e América do Sul) e G. arboreum e G. herbaceum do Velho Mundo (China, Egipto, Índia).

Contudo as primeiras referências ao algodão são bem anteriores. A primeira referência escrita ao algodão data de 1500 AC, inscrita no designado Código de Manu (मनुस्मृति, "Manu Smriti"), considerado a primeira legislação do mundo indiano e em que se estabeleceu o sistema de castas na sociedade Hindu. No entanto, estudos arqueológicos indicam que os Incas, no Peru, bem como outras civilizações, utilizavam o algodão desde 4500 AC Registos históricos anteriores à Era Cristã mencionam a Índia como o local onde mais se cultivava o algodão e que no Egipto, no Sudão e em toda a Ásia Menor já se utilizava o algodão como produto de primeira necessidade.

O algodão foi dado a conhecer aos europeus por Alexandre, o Grande, quando em 325 AC passa pelo Paquistão onde já existia uma indústria de confeção para homem e mulher e, como diziam os soldados do exército de Alexandre, a “lã vegetal2 ” era óptima para “almofadar” as suas selas.

No séc. II DC o algodão é introduzido na Europa, aquando do domínio árabe da Península Ibérica, que ali o vão cultivar, tendo sido necessário esperar pelas primeiras Cruzadas para que o algodão passasse regularmente a ser usado no vestuário.

Nesta época, praticamente em toda a idade Média, pouco se conhecia sobre o que se passava fora da Europa, tendo sido esta a época em que se confabulou imenso sobre a origem do algodão. Sir John Mandeville3 , um algo controverso cavaleiro inglês, ou o viajante e escritor Henry Lee (ver 1), aos quais se juntavam as então já antigas estórias de Heródoto (séc. V AC) ou, ainda mais antigas, de Teofrasto (séc. III AC), contribuíram para a criação de um grande e duradouro mito: o “Cordeiro Vegetal da Tartária4” , também conhecido por “Polypodium borametz”, “polipódio chinês” ou apenas “Borametz”.


De acordo com esses e outros autores o Cordeiro Vegetal era uma planta que no interior dos seus frutos produzia um cordeiro de tamanho real (que grandes frutos), com ossos, sangue e músculos, coberto de lã e preso a um pequeno pé vegetal, pelo seu ventre. Sendo esta planta extremamente flexível, ao cordeiro era-lhe permitido tocar o solo e pastar a vegetação ao seu redor. Quando toda a vegetação fosse comida ou o caule se partisse, o cordeiro morria. Enquanto tal não acontecesse era possível tosquiar o carneiro e produzir o algodão.

Contudo a separação das sementes das fibras era muito difícil e, consequentemente, a produção era extremamente diminuta tendo que serem usadas outras fibras como o cânhamo. Só com o advento da Revolução Industrial (séc. XVIII) e a invenção do “descaroçador de algodão” (Eli Whitney, 1792, USA) a tecelagem do algodão passa a dominar o mercado mundial dos tecidos.

Faltará referir que sendo os árabes os grandes comerciantes e impulsionadores da cultura do algodão, não é de surpreender que fosse o seu idioma a impor-se e, assim, a partir do árabe al-quTún (ou al- kutun), a separação do artigo “al” levou a que “quTún” originasse palavras como “cotton” em inglês, “coton” em francês, “cotone” em italiano e “cotão” em português. No idioma espanhol e no português al-quTún deu origem directamente a “algodón” e “algodão”, respectivamente.


Referências:

1. Lee, H. 1887. The Vegetable Lamb of Tartary: A Curious Fable of the Cotton Plant. Sampson Low, Marston, S., & Rivington,C. London ( https://www.gutenberg.org/files/43343/43343-h/43343-h.htm)

2. Yafa, S. 2005. Cotton: The Biography of a Revolutionary Fiber. Penguin Books.

3. Mandeville, J. 1900. The Travels of Sir John Mandeville. Macmillan and Co. edition by David Price. London (a partir da edição de 1499, impressa por Wynkyn de Worde) ( https://www.gutenberg.org/files/782/782-h/782-h.htm)

4. Scaliger, J. C. 1557. Exotericarum exercitationum liber XV., de subtililate: ad Hieronymum Cardanum. Lutetiae: Morellus. (disponível na Internet)

Imagem do Cordeiro Vegetal da Tartária disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/Vegetable_Lamb_of_Tartary#/media/File:Vegetable_lamb_(Lee,_1887).jpg

Classificação

Localização

EUA

Data de Publicação

15 de Dezembro de 2021

Data de Realização

2011-10-15

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